Depois da tempestade (Singapura)

Posted 21 Novembro 2006 by Paulo B.
Categories: Extracto de Tigres (Sudoeste Asiático), Viagens

Na cidade-estado as restrições à liberdade não são extremas, a pena de morte-por-dá-cá-aquela-palha (o maior índice de execuções per capita no mundo) não se aplica à dissidência política. Existe no entanto censura nos meios de comunicação social, é proibido possuir antenas parabólicas, o acesso à internet está restringido – tudo isto há-de ter alguma relação com a larga maioria com que é eleito há anos o partido do Governo apesar da crise, p­ena que os videntes sempre tão requisitados para definir o local mais favorável para a localização e orientação de um edifício ou a data mais auspiciosa para se realizar um investimento, não a tenham previsto. Em todo o Sudoeste Asiático – e até no Ocidente, Francis Fukuyama incluído – se argumentou em época da euforia, esquecendo que o patamar de partida era baixo, que por detrás de uma performance económica superior à do Ocidente estava o respeito pela autoridade, a ideia de que a sociedade é mais importante que o indivíduo – quantos analistas de crédito não terão emprestado em excesso porque quem solicitava o empréstimo era hierarquicamente superior? O tufão financeiro foi leve em Singapura e a cidade-Estado já está regressou a um crescimento chinês (ou não fosse esta a etnia maioritária), mas os críticos dizem que a uma democracia guiada falta a apetência pelo risco e a criatividade que garantam o desenvolvimento no longo prazo.

Não sei brincar (Singapura)

Posted 19 Novembro 2006 by Paulo B.
Categories: Extracto de Tigres (Sudoeste Asiático), Viagens

ist2_268380_adam_daydreaming.jpgUm dos canais mostra duas amigas adolescentes, uma chinesa, outra indiana, estudantes da mesma escola e apreciadoras dos filmes de Bollywood e Hong Kong. Ensinam-se línguas uma à outra, vão rezar à religião alheia. Falam pausadamente, sem jargão. Explicam as ideias de forma clara e dizem que irão estar no casamento uma da outra. Surge depois o rapaz tâmil que toca na banda chinesa da escola, e ele e os colegas afirmam que é bom conhecer outras culturas.  Mais uma vez a correcção com que falam, a capacidade de articular as frases sem you knows, likes, yas, tipos, tás a veres,s e por aí adiante, a desafectação e a facilidade do discurso contrariam a ideia de que depois da revolução industrial se tornou natural os adolescentes serem rebeldes.

Tanto aprumo,  porém,  lembra o discurso oficial do governo. Singapura, ao que parece, actualizou-se económica mas não socialmente, parte da responsabilidade está provavelmente num Executivo que muitos consideram paternalista, por vezes à democracia menos dado, que proibe o bar-top dancing porque alguém se pode magoar, que criou a Social Development Unit com o objectivo de estimular o matrimónio entre licenciados e lançou o folheto “When Boy Meets Girl: The Chemistry Guide”. Aí se trata, entre outros assuntos, da gestão de expectativas (não abrir o jogo logo no primeiro encontro), aí se avisa que «extreme halitosis may require medical attention», aí se propõe o workshop «How to date» por $49.00.  Não esqueçâmos que para a maioria dos destinatários, de origem chinesa, é tabu falar de questões pessoais.

Comunhão do quotidiano (Singapura)

Posted 16 Novembro 2006 by Paulo B.
Categories: Extracto de Tigres (Sudoeste Asiático), Viagens

dover-park-view.jpgAinda é manhã cedo num 30º andar de Dover Parkview. Seria fácil acusar o arquitecto de machismo quando se passa da sala ar-condicionada para a atmosfera de piscina, sauna, inferno, da cozinha, não acontecesse o mesmo na casa-de-banho onde ambos os sexos se vêm obrigados a suar. As janelas abertas deixam ouvir os ruídos do quotidiano chinês, malaio, indiano, as mulheres e as crianças e os mais velhos na lida da normalidade neste bloco e nos blocos vizinhos. Chocalham pratos e talheres, mas o viajante tem relutância em ouvir, receando sair de casa por achar que da primeira vez os chineses devem ser vistos na China, os malaios na Malásia e os indianos na India.

Não é apenas na rua que se conhece uma cidade, um Estado, uma cidade-Estado. É certo que os satélites levam hoje as imagens a todos os cantos, mas só em Singapura é que a televisão de Singapura entra com esta força pelos ouvidos e pelo nariz e pela boca e pela pele do viajante, transformando o acto banal de estar sentado no sofá a olhar para o ecrã numa espécie de observação participante,  pela simples razão de que, neste momento, aqui ao lado, neste e nos vizinhos blocos – e em Chinatown, Arab Street e Little India – milhares de pessoas fazem o mesmo nas suas próprias casas.

Velhos ricos

Posted 14 Novembro 2006 by Paulo B.
Categories: Quotidiano

cascais.jpgAgualva-Cacém, Caniço, Fiães, Rebordosa, Tarouca, Vila Baleira – todas são cidade, mas Cascais, com mais de 30.000 habitantes e centro de área urbana de 180.000, ainda não. Por causa de tão ilógico facto perdi uma aposta com o meu pai e estou-lhe a dever um jantar, a pagar num restaurante acessível da vila…  

Reforma da administração familiar

Posted 9 Novembro 2006 by Paulo B.
Categories: Pensamentos duvidosos, Quotidiano, Vida

leop-perguicoso.jpgNão deveria quem apregoa o fim do emprego para toda a vida alargar o âmbito para proclamar o fim da relação para toda a vida? Talvez um dia os casados de longa duração venham a ser comparados a funcionários públicos pouco motivados e o mérito atribuído aos trabalhadores por conta própria que passam recibos verdes a várias entidades.  

Taxi driver (Singapura)

Posted 8 Novembro 2006 by Paulo B.
Categories: Extracto de Tigres (Sudoeste Asiático), Viagens

taxi-singapupra.jpgWhere are you going? – protesta o amigo do viajante ao taxista chinês,  we want to go to Chijmes, you must follow Outram Road, then Eu Tong Sen Street, how do you say it, is this the way you say it? – e o condutor continua a conduzir calado. You know, Marcel, it is us the Europeans who must come here to satisfy Asian women, they are never happy with their Asian husbands – e o viajante olha para Marcel, amigo do amigo, e Marcel encolhe os ombros, never mind, he always does this at night, enquanto o automóvel prossegue pela longa avenida-auto-estrada de três faixas, ladeada de árvores e vegetação.   

Oh, man, the experiences I’ve had – acham que ele está a ouvir,  está a perceber? – they work so much, always working, the husbands – está a ficar furioso ou quê? – the other day it was the woman of a bus driver, he worked as a bus driver, but there are all kinds of drivers and she was saying drive me… she kept saying drive me baby, and there are even taxi drivers, drive me baby, drive me crazy.

Teologia pagã

Posted 7 Novembro 2006 by Paulo B.
Categories: Pensamentos duvidosos

michelangelo.jpg

Muito mais medo tem aquele que não teme a Deus.

Num food court de Singapura

Posted 3 Novembro 2006 by Paulo B.
Categories: Extracto de Tigres (Sudoeste Asiático), Viagens

nasi-goreng.jpgPara uma simples aglomeração de pequenos restaurantes em torno de um mesário comum que serve o bairro, não podiam ser mais díspares os sabores, e ao viajante esmagado pela novidade falta-lhe a subtileza necessária para gozar as diferenças no palato. Cada estabelecimento é-lhe asiático antes de ser muçulmano, malaio, indonésio, indiano ou chinês – e nem vale a pena pensar que indiano se refere a um subcontinente de inúmeras culturas, que chinês corresponde uma nação mais povoada que o sub-continente.

Trata-se de novo paradigma, é impossível querer saber no imediato por onde passam as fronteiras internas, melhor servir-se do acaso que procurar critério razoável para escolher entre nasi goreng, nasi padang, wanton noodles, fried oyster porridge, saty beehoon, laksa, yong tau foo, roti prata, banana prata e por aí fora.  A panqueca é apresentada semi-crua, recheada do fruto amarelo, e acompanha-a caril de lentilhas e uma massa estaladiça que envolve as sardinhas e a cebola. O lassi aguado põe o estômago a digerir de imediato as estranhas texturas, delicadas, granuladas, liquefeitas, numa experiência que toca fundo todos os sentidos.

Economia de padaria

Posted 31 Outubro 2006 by Paulo B.
Categories: Pensamentos duvidosos

pao.jpg Os manuais de economia falam muito do conflito entre eficiência e equidade, que diz mais ou menos que a forma de dividir um pão (a riqueza produzida) afecta o tamanho do pão ou, mais exactamente, que se os padeiros (agentes económicos) não ficarem com as fatias que lhe são devidas porque se decidiu (através de impostos ou contribuições para a segurança social, por exemplo) dar a quem não suou toda a noite (os pobres, os desempregados, por exemplo) mais que umas migalhas, na próxima fornada farão uma carcaça mais pequena.  

O que os manuais de economia não dizem com frequência é que, a partir de determinados níveis, a concentração de riqueza também pode ser ineficiente. Se os padeiros tiverem mais olhos que barriga e não conseguirem comer todas as fatias que lhes tocam (terceiras e quartas e quintas casas, por exemplo) então aqueles que têm alguma fome (falta de habitação, por exemplo) e todos os outros compradores de pão irão achar que elas estão a apodrecer desaproveitadas.

Viajante indiscreto (Singapura)

Posted 27 Outubro 2006 by Paulo B.
Categories: Extracto de Tigres (Sudoeste Asiático), Viagens

saia-voadora.jpg O viajante apeia-se por engano numa estação que não é a mais próxima do apartamento do amigo que lhe dará guarida, mas isso não constitui contratempo quando tudo é assombro no país novo, virgem no continente nunca visto. Esta plataforma não era para ser pisada, as escadas não deveria ser assim descidas juntamente com estes passageiros a caminho de casa, aqueles edifícios de 20 e 30 e 40 andares entre as árvores deveriam ter permanecido na inexistência – tudo isto foi como se Singapura tivesse sido apanhada desprevenida, como se o viajante lhe tivesse levantado as saias e espreitado a intimidade. 

As salamandras, imóveis, aguardam com paciência esfíngica a possibilidade de deitar a língua ao voo de algum mosquito. Sua-se às dez da noite, há palmeiras e bananeiras e bambus e sabe-se lá quantas outras árvores desconhecidas, folhas generosas que de noite são vultos coleantes, a recepção do condomínio está iluminada como que para a entrega dos Óscares. Uma fonte decorativa escorre a água importada da Malásia e três ou quatros guardas uniformizados completam o quadro dos trópicos do Primeiro Mundo como certa vez em Miami Beach, mas os amuletos de papel encarnado pendurados nas varandas, as franjas esvoaçando na brisa, são os olhos rasgados dos edifícios de 20 e 30 e 40 andares a dizer que já cá estamos na Ásia.